O não sustentável rodoanel de Zema

Está nas mãos do governador Romeu Zema uma oportunidade de ouro para ele entrar bem ou não na história político-ambiental de Minas. Ser mais um governador do estado-berço do movimento ambientalista brasileiro. Ou, vide a beleza de nossas montanhas, flores e cursos d´água, cada dia mais desaparecendo em todo o planeta, ele ser um estadista com visão de futuro.

Trata-se do sonhado, há mais de 20 anos, projeto de implantação do Rodoanel Metropolitano de BH, em socorro à tragédia do atual e saturado Anel Rodoviário da capital mineira.

Imagine seis pistas, de asfalto e cimento de largura equivalente a um quarteirão, por 100 quilômetros de comprimento, passando em linha reta pelo verde que estiver na frente. Não fazendo curva alguma para desviar ou salvar um manancial aqui, outra floresta acolá, como manda a ultrapassada engenharia que ainda não considera que o universo, como a sua natureza, é curvo, como Einstein demonstrou. 

E duas questões maiores estão no colo do governador. A futura rodovia, avaliada em R$ 6,21 bilhões, foi projetada inicialmente com o nome de Alça-Norte, para ligar Betim a Ravena, em Sabará. Mas, como houve a tragédia da Vale em Brumadinho, região onde também está o Inhotim, reconhecido internacionalmente, o que Zema fez com visão de longo alcance?

À esquerda, vê-se o início do traçado retilíneo da futura rodovia. Ela avança, em linha reta, sobre o que ainda existe de meio ambiente e natureza preservada pelo caminho. Não faz curva ao longo de 100 quilômetros previstos de extensão. O próprio vídeo oficial do governo sugere que o projeto foi feito sobre mapas em escritório. E não in loco, com pesquisas de campo.

Propôs e conseguiu estender o mesmo rodoanel, agora com o nome de Alça-Sul, para além da fatídica Mina do Feijão, a ponto de ter de perfurar a Serra do Rola-Moça com dois faraônicos túneis, até a BR-040, do outro lado dela, na saída BH-Rio.

Parece que ninguém comunicou ao governador que o Rola-Moça, graças à luta de anos dos ambientalistas e comunidades vizinhas, é hoje um parque público, criado pelo próprio Governo do Estado, como Unidade de Conservação (UC), responsável pelo abastecimento de água de grande parte da Região Metropolitana de BH. E que todos os seis mananciais que compõem a beleza da serra são declarados oficialmente como Áreas de Proteção Especial (APE). Ou seja, do ponto de vista ecológico, o meio ambiente e natureza ainda não fazem parte do traçado oficial do projeto. Ambos foram negligenciados. 

Em vez de a rodovia se moldar à natureza, dar a volta na serra e não a cortar, o que inclusive é mais econômico, em Minas acontece o contrário, em pleno século XXI. Os técnicos retilíneos do Rodoanel querem que a natureza se adéque a eles, ou será atropelada. 

Enfim, e de positivo, o governador conseguiu que a Vale pagasse até R$6,21 bilhões dentro do custo total da obra, conforme acordo  que a mineradora fez, repassando integralmente o valor da multa aplicada pela tragédia que tirou a vida de 283 pessoas e dizimou a exuberância turística da natureza local. 

Este é o maior desafio de Zema. Não esquecer que o dinheiro da Vale tem a cor vermelha de sangue. Vem carimbado de vidas humanas e vegetais que se perderam na lama. E, por isso mesmo, em memória e respeito a elas, ele tem de ter uma aplicação 100% exemplarmente verde, ecológica e sustentável. E não em vermelho, em mais degradação ambiental, como está sendo negligenciado ao longo de todo o traçado do Rodoanel. 

Como a Ecológico reporta nesta edição, sob à ótica jurídica, negligenciar é o ato de omitir ou de esquecer algo que deveria ter sido dito ou feito de modo a evitar que produza lesão ou dano a terceiros.

Ainda dá tempo de olhar isso, e fazer sua escolha, governador. Como os cientistas na luta contra a pandemia, melhor e mais mineiro, ouvir os ambientalistas!

Próxima Postagem
« Prev Post
Próxima Postagem
Próximo Post »
0 Deixe seu comentário!