O eu acredito da “Amazônia de Minas”

Quando a Natureza se utiliza de um militar francês e de quatro ambientalistas para ser preservada, tornar-se parque estadual e receber R$ 63 milhões da Fundação Renova, como compensação pela tragédia de Mariana no Rio Doce




Esse é o valor de investimentos que o Parque Estadual do Rio Doce, a maior floresta tropical preservada de Minas, irá receber da Fundação Renova, ao longo de 10 anos, para a sua missão de salvar o que restou do bioma Atlântico em toda a região do Vale do Aço.

Esta decisão foi aprovada pelo Comitê Interfederativo (CIF), criado em resposta à tragédia ambiental do rompimento da Barragem de Fundão, provocado pela mineradora Samarco, em novembro de 2015, via Termo de Ajustamento de Conduta. O documento foi assinado entre a União, os estados de Minas Gerais e Espírito Santo e as empresas Samarco, Vale e BHP.

Para quem estranhar tamanha generosidade - e a foto paradisíaca acima justifica tudo - do apelido de “Amazônia mineira”, vale lembrarmos que ele foi dado dois anos antes da ECO/92, no Governo Itamar Franco, pelo seu ministro do Meio Ambiente, Rubens Ricúpero. Convidado a sobrevoar a área pelo ambientalista e militante José Carlos Carvalho, então diretor-geral do Instituto Estadual de Florestas (IEF), no Governo Hélio Garcia, Ricúpero se impressionou ao testemunhar tamanha dádiva da Natureza ou do Deus-Criador: um conjunto ecologicamente interligado de 40 lagoas - praticamente ainda virgens, sem a presença humana; povoadas por uma flora e uma fauna exuberantes em volta:

“O que vocês têm aqui e, pouca gente sabe, é uma mini-Amazônia! Que Deus a conserve!”, profetizou o ministro.

Eu acredito
Essa bênção, agora com a decisão da Renova, nos faz retroagir a uma história mais antiga ainda, que virou lenda. Ela ocorreu no início do século XIX. Foi quando durante uma famosa expedição exploratória, o capitão francês Guido Marlière subiu até o pico da serra do hoje, não à toa, município de Marliéria, vizinho e parte integrante do parque. É dali que se avista todo o esplendor da nossa “Amazônia”. E o seu principal cartão-postal: a Lagoa Dom Helvécio, a maior de todas, em homenagem ao ex-arcebispo da Diocese de Mariana, seu primeiro defensor e ambientalista.
Foi nessa maravilha de cenário e mal acreditando no que via, que o fidalgo francês desceu do cavalo, ajoelhou-se e exclamou: “Je crois en Dieu!” (Eu creio em Deus!). Logo “entendido” e traduzido mineiramente pelos nativos que faziam parte da caravana em uma só palavra: “Jecroá”.
Daí o nome atual desse lugar: Alto da Serra do Jecroá. É de onde continua possível vislumbrar os 36 mil hectares do Parque Estadual do Rio Doce que, preservados como a primeira Unidade de Conservação (UC) implantada em Minas, ainda formam o maior complexo lacustre do estado e o terceiro do Brasil. Só perdendo para a Amazônia e o Pantanal, em termos de água e verde.

Eu defendo
A história prossegue. Um ano depois da ECO, em 1993, o Parque Estadual do Rio Doce também ganhou o título de “Reserva Mundial da Biosfera”, pela Unesco, tal como o Parque Nacional da Serra do Cipó, na cordilheira do Espinhaço.

Por que esta comparação entre o Rio Doce e a Serra do Cipó? Porque ambas Unidades de Conservação (UCs), integrantes da Bacia Hidrográfica do Rio Doce, só foram salvas graças à luta, à perseverança e ao amor inconfidente de três outros ambientalistas especiais: o dentista Hugo Werneck, já falecido, a quem a Revista Ecológico é dedicada a cada Lua cheia. E seus conselheiros, os biólogos Ângelo Machado e Célio Valle à frente, na época, do combativo Centro para a Conservação da Natureza em Minas Gerais. Uma ONG cuja sede, em BH, era dentro de uma kombi velha e ambulante, tamanha precariedade de recursos.

Na década de 1960 e com apoio do jornal Estado de Minas, esses mosqueteiros da natureza conseguiram barrar o asfaltamento de uma polêmica estrada que tinha sido aberta dentro do parque. Ela ligava o lugarejo Revés do Belém, onde havia uma antiga ponte para atravessar o Rio Doce, até Caratinga (leia-se também às siderúrgicas do Vale do Aço), terra natal e política de José Augusto Ferreira, ex-presidente da Açominas. A briga foi feia e envolveu a militância também de Maria Dalce Ricas, à frente da Amda.

Aliança do destino, na passagem dos anos 1968 e 1969, quando se deveria ou não ser asfaltada a estrada e pavimentar também a ponte histórica, houve um grande e trágico incêndio ali, provavelmente criminoso, por ser uma área naturalmente protegida. Onze pessoas ficaram cercadas pelo fogo e morreram.

O projeto de asfaltamento da estrada-parque foi logo abortado. E também preservada e recuperada, a então “Ponte Queimada” do Revés do Belém, como passou a ser conhecida, se transformou em um museu-laboratório para pesquisas científicas.

Eu crio
Com a Serra do Cipó, esses ambientalistas históricos fizeram exatamente o que o governo federal não sabe ou escolhe fazer também na Amazônia. Aproveitaram também a ocorrência de um grande e sem controle incêndio mostrado pela mídia nacional na serra, e conseguiram comover o então governador de Minas, Aureliano Chaves, que já tinha sensibilidade pela questão ambiental (a Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e “Meio Ambiente”, mais o embrião da Semad e a Feam foram criados no seu governo).

Ainda levaram a ele, já nervoso, a reprodução de uma nota publicada no Jornal do Brasil, denunciando que “rolos e mais rolos de fumaça continuavam subindo e enegrecendo o céu, sem que o Governo de Minas fizesse alguma coisa...”

Resultado: não restou outra atitude por parte do governador. Pressionado pela opinião publica, Aureliano assinou - e depois também ficou agradecido - o decreto de criação do parque estadual, cuja minuta de texto e justificativa os mosqueteiros ecológicos já tinham imprimido subversivamente em papel oficial. Tudo, no fundo, por amor à natureza.

Essa é a história dos 3% do bioma da Mata Atlântica que sobraram em Minas. De Mariana ao Espírito Santo, o Rio Doce, dentro e fora do parque, agradece!


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