FURO ECOLÓGICO: Vem de Minas o Prêmio Nobel de Sustentabilidade





Após seis anos de conversas e buscas de patrocínio, a Fundação Pro-Natura Internacional  fechou acordo com as famílias Rockfeler e do cientista sueco Alfred Nobel, para o lançamento, ainda este ano, do “Prêmio Nobel de Sustentabilidade”. Esta informação foi dada extraoficialmente pelo próprio criador da Pro-Natura, Marcelo de Andrade, mineiro de BH, um dos precursores do movimento ambientalista mundial, durante a última reunião do Conselho de Presidentes, na capital. Se confirmada, graças a Minas Gerais, o estado-berço brasileiro da consciência ecológica (além das categorias Literatura, Medicina, Física, Química, Economia e Ativismo pela Paz), o Prêmio Nobel de Sustentabilidade também irá reconhecer, doravante, quem mais fizer pela segurança ambiental do planeta e sua humanidade.

A natureza aplaude!

Tragédias (e soluções) acompanham o novo presidente da Vale

Tragédias (e soluções) acompanham o novo presidente da Vale
O viés ambiental na carreira profissional do engenheiro Eduardo de Salles Bartolomeo, escolhido para comandar interinamente a Vale diante da tragédia que ela causou e continua negando em Brumadinho, repetindo Mariana, vem de longe.
Como está descrito em seu currículo de executivo sênior, já há 10 anos na mineradora, com “expertise em liderar operações complexas e estabelecer uma cultura de excelência operacional”, ele sabe disso.
Se não se lembra, após ter sido membro do Conselho de Administração e do Comitê de Governança, Conformidade e Risco da Vale, no período de 2016 a 2017, Eduardo Bartolomeo vai ser lembrado aqui. Ainda mais que a escolha de seu nome foi alinhada e anunciada, oficialmente, “para garantir estabilidade às operações da empresa e dar continuidade ao processo de indenização, reparação e mitigação dos efeitos do rompimento da Barragem 1 da Mina do Córrego do Feijão”.
Onde morreram e desapareceram mais de 300 pessoas, não podemos esquecer, seres humanos, na sua maioria funcionários e prestadores de serviços da Vale.
Acompanhe, com exclusividade, essa sua história ambiental. E, agora, desafiadora ao extremo:
Vinte e três anos atrás...
Estamos em Juatuba, município mineiro distante 50 km de BH. Quase a mesma distância entre a capital mineira e Brumadinho. Nessa época, Inhotim ainda não existia. A Revista Ecológico se chamava Estado Ecológico e circulava, em toda lua cheia, como um suplemento impresso encartado no jornal "Estado de Minas".
Era início de 1996, quatro anos depois da ECO/92, no Rio de Janeiro, a conferência que mais reuniu estadistas na história da humanidade. Mais um ano, enfim, em que ninguém conseguia decifrar a causa de tanta mortalidade de peixes a cada chuva forte que caia em Juatuba, na Grande BH. E geralmente à noite, no já poluído Ribeirão Céu Azul, afluente do Rio Paraopeba, Bacia do São Francisco. Um verdadeiro mistério, perante a opinião pública. E derrotas sucessivas dos ecologistas e órgãos ambientais. Até que um velho ditado, que a gente aprendia na escola quando criança, se fez respeitado: “A verdade é como azeite, sempre fica à tona d'àgua”.
Uma denúncia anônima revelou que quem matava os peixes a jusante e na surdina, era uma bem-quista fábrica da Cervejaria Brahma no município.
Nessa época, fazia sucesso a memorável campanha publicitária: “Brahma, a Número 1”. E o que essa fábrica fazia em Minas?
Para fugir da fiscalização ambiental e do olhar humano, em vez de tratar, ela acumulava os seus rejeitos industriais. E os lançava de madrugada, quando a população estava dormindo e chovia forte, de forma que eles se misturassem com outras fontes de poluição menores.
Foi o que o Estado Ecológico reportou, com exclusividade, no dia três de abril de 1996, com a chamada de capa: “Matando na fonte”. E dentro: “A Número 1... em degradação”.
Graças à denúncia, a fábrica foi autuada duas vezes, também por poluir uma nascente e um córrego outrora cristalino e afluente do Ribeirão Céu Azul, ao redor de sua planta industrial. Os fiscais da Feam (Fundação Estadual do Meio Ambiente) logo confirmaram dois parâmetros fora dos padrões de qualidade hídrica do Copam (Conselho Estadual de Política Ambiental): “Demanda química de oxigênio (DQO)” e “presença de amônia”, que a cervejaria também utilizava no seu sistema de refrigeração, em dosagens “12 vezes acima” do permitido pela legislação ambiental federal. Bastante tóxica, a amônia é um gás incolor que se dissolve bem na água.
Quase dois meses depois, em três de maio de 1996, saíram os resultados da causa “mortis” em profusão dos peixes. Segundo as análises, eles morriam de hemorragia. Ou seja, de “derramamento de sangue para fora dos vasos que deveriam contê-lo”.
Ao lado da autuação também pelo Ibama, encaminhada ao Ministério Público para instauração de processo, se confirmou mais: “A Brahma faz do local (parte dos 10 hectares da sua área verde, o seu 'lixão industrial particular'. Queima, a céu aberto, montanhas de tampinhas, vidros, rótulos e outras embalagens de seus produtos. Pra completar, ela ainda jogava os resíduos fedorentos de cevada em APP (Área de Preservação Permanente)".
A Brahma, enfim, não teve como fugir. Mesmo depois de ter instalado um sistema de controle de efluentes exigidos pela legislação em sua fábrica, ela reconheceu o dolo. O problema, garantiram os ecologistas na época, liderados pela Amda (Associação Mineira de Defesa do Ambiente), estava na falta de gestão ambiental permanente. A empresa precisava investir mesmo, com consciência e vontade política, na operação sistemática do processo de controle, o que os fatos confirmaram.
E o que, afinal, o novo presidente interino da Vale tem a ver com isso? Tudo. Antes de trabalhar na mineradora, entre os anos 1994-2003, Eduardo Bartolomeo foi diretor de Operações da Ambev. E em 1998, quando a Brahma deu a volta por cima, tornando-se a primeira cervejaria do mundo a receber a Certificação Ambiental ISO 14001, graças às mudanças na ex-poluidora fábrica de Juatuba, quem era seu gerente? Ele mesmo: Eduardo Bartolomeo.
É o que a Revista Ecológico continua reportando a seguir:
Quase três anos depois de ser enquadrada pela legislação brasileira como responsável pela morte de milhares de peixes, a Brahma continuou alegando que o vazamento de amônia foi um acidente, não intencional. Dizia, primeiro: “que errar é humano”. E, segundo: “que aprender e melhorar com o erro é ecológico”.
Pois foi isso que aconteceu e a Ecológico também anunciou com exclusividade: “A Número 1... em dar a volta por cima”.
Nada de graça, é claro. Para cumprir todas as exigências do processo e receber o selo comprobatório de seriedade no trato com o meio ambiente, a Brahma teve de investir R$ 810 mil, entre os anos 1996/1998, na compra de equipamentos antipoluentes, em consultoria externa e treinamento para todos os seus funcionários.
Ela ainda buscou as tecnologias limpas existentes no Brasil e no exterior desde a denúncia, promovendo mudanças estruturais na sua antiga fábrica, como a destinação correta e reciclagem de 95% dos resíduos ali gerados, criando áreas específicas para armazená-los e dar-lhes destinação também correta. Chegou a construir uma plataforma para medir a emissão de gases da chaminé das caldeiras.
A certificação do seu novo Sistema de Gestão Ambiental (SGA) interno foi recomendada pelo órgão inglês Bureau Veritas Quality International.
Segundo comemorou seu gerente, Eduardo Bartolomeo, nessa época, a Brahma também conseguiu estender sua preocupação ambiental à comunidade em volta, até então seus inimigos e críticos naturais. Face, é claro, à poluição que causava. Foi quando desenvolveu vários projetos ecológicos: o plantio de 10 mil mudas de espécies nativas e ornamentais. A recuperação das matas ciliares às margens do Ribeirão Céu Azul, de onde retirava água para uso industrial e consumo humano. E investimento no aterro sanitário do município.
A consciência “ecológica” da Brahma, destacou Bartolomeo, não se restringiria a Minas Gerais. Outras três unidades de cervejaria – em Lages, Águas Claras do Norte e Águas Claras do Sul – também estavam buscando a Certificação ISO 14000: “Toda a experiência que tivemos em Juatuba será repassada às demais fábricas da empresa” – disse ele.
Com capacidade instalada para a produção de 500 milhões de litros de cervejas e refrigerantes, a Unidade de Juatuba passou a gerar quase mil empregos diretos e indiretos, ocupando uma área de mais de 200 mil metros quadrados: “Tudo e todos” – concluiu a reportagem – “agora ecologicamente corretos”.
E Eduardo Bartolomeo? Sua última declaração, como gerente da filial Minas Gerais foi: “Investir em meio ambiente é uma forma de garantir não somente o nosso futuro, mas também a nossa própria sobrevivência em um mercado cada vez mais competitivo e globalizado”. E repetiu: “Investir em meio ambiente é, definitivamente, uma forma de se melhorar o desempenho econômico/financeiro de qualquer empresa”.
Continua sendo este o pensamento do agora presidente interino da Vale? É o que Brumadinho e Mariana aguardam saber.
A última performance da Brahma em Juatuba
Olha como são as coisas. Seis anos depois que Eduardo Bartolomeo deixou o cargo de diretor de Operações da Ambev, na ”Semana Mundial da Água” deste ano, a fábrica de Juatuba voltou às manchetes. E não mais como o exemplo de sustentabilidade para as demais cervejarias do mundo. Foi o que toda a mídia noticiou: o fechamento da fábrica da Ambev em Minas por falta de... higiene!
Segundo os fiscais do Serviço de Inspeção de Produtor de Origem Vegetal (Sipov), a unidade que fabrica cervejas e chope das marcas Skol, Caracu, Antarctica Sub Zero, Original, Brahma e Serrana nem tinha registro oficial do governo, além de todas as irregularidades encontradas.
Em nota para o mercado, a Ambev, que faz parte da multinacional belga Anheuser-Busch Inbev, explicou que as operações da cervejaria de Juatuba estavam temporariamente suspensas para a realização de pequenas reformas de estrutura”. Nem uma linha, ela informou, do que já foi um dia, de ruim e bom para a natureza e às pessoas à sua volta, além do economicamente viável.
O boulevard engavetado do Arrudas
Nessa mesma época, como forma de também compensar ecologicamente a capital mineira e dar visibilidade à marca Brahma, instalada na Bacia Hidrográfica do Velho Chico, Eduardo Bartolomeo entrou em contato com os ambientalistas e a Prefeitura de BH, por meio da Secretária Municipal de Meio Ambiente. O secretário era o jornalista Paulo Lott. E Célio de Castro, o prefeito.
Bartolomeo prometeu patrocinar os estudos de um projeto ambiental executivo final para a capital dos mineiros, a ex-“Cidade Jardim” do Brasil. E o fez, a um custo, à época, de R$ 150 mil.
Assim nasceu o Projeto de Recuperação Urbana, Ambiental e Paisagística – intitulado “Boulevard do Arrudas” (à dir.) - à semelhança das margens artísticas e floridas do Rio Sena, em Paris, e das “ramblas” de Barcelona. Um sonho que nunca foi realizado por questões politiqueiras.
A entrega oficial do projeto executivo final, com apoio e participação democrática da população, ocorreu festivamente, nas margens poluídas e sem arte do Arrudas, tendo a Igreja de Santa Tereza ao fundo, durante as comemorações de mais um “Dia Mundial do Meio Ambiente”. Bartolomeo financiou e entregou o projeto pronto para a prefeitura que, por questões partidárias, ainda o mantém arquivado, semimorto nas gavetas da Secretaria Municipal de Obras e Serviços Urbanos de BH.
Alô Alexandre Kalil, ressuscita-o!

O amor ao ninho



Simples e emotiva, tal como a natureza que ele amava. Foi assim, no último domingo de março, na Paróquia Santa Rita de Cássia, em BH, a missa realizada pelo padre Toninho em lembrança ao centenário de nascimento do ambientalista Hugo Werneck. Um dos precursores da consciência ecológica na América Latina, é a ele que a Revista Ecológico é dedicada a cada nova lua cheia no céu.

Considerado um dos pais do ambientalismo brasileiro, ele foi o fundador do Centro para a Conservação da Natureza em Minas Gerais, uma das primeiras ONGs do país, cuja sede fixa era o seu concorrido gabinete de dentista no centro de BH. E como sede móvel, uma velha kombi que o levava a procurar passarinhos e se encantar com as borboletas pelos Geraes afora retratadas por Guimarães Rosa. Graças à sua luta, acham-se hoje preservados tanto o Parque Estadual do Rio Doce, no Vale do Aço, considerado a “Amazônia mineira”; quanto o Parque Nacional da Serra do Cipó, entre tantas áreas verdes.
Além da Revista Ecológico, o “Prêmio Hugo Werneck de Sustentabilidade & Amor à Natureza”, hoje na sua 10a edição, foi criado para manter viva a sua memória. O ambientalista nasceu no dia 30 de março de 1919 e nos deixou em novembro de 2008, aos 89 anos. Ele acreditava que só o amor, a educação e a democratização da informação ambiental poderiam mudar a atitude do ser humano em relação à natureza. Foi essa a sua mensagem, na forma de um “santinho” com sua foto, que seus familiares distribuíram ao final da cerimônia religiosa, devoto e ajudante da paróquia que ele era. De um lado, a justificativa sutil e maior de sua luta: “Só a beleza do mundo deveria bastar para preservarmos a natureza”. E de outro, a mais colorida: “Imagine se matássemos ou aprisionássemos todas as larvas de borboletas, por serem feias e nocivas nesse estágio? Não existiram borboletas adultas, esvoaçantes em sua beleza, leveza e graça. Não existiram ‘cores que voam’ a nos encantar, como uma criança um dia me ensinou a vê-las”.

Obrigado, mestre!

Em tempo:Reveja alguns dos seus ensinamentos, ao som de “Metamorfose Ambulante”, de Raul Seixas!