Cachoeira de saudade

Imagem: Marcos Takamatsu
Veja como são as coisas. Enquanto em BH, durante o "10º Seminário Internacional de Sustentabilidade e XXV Congresso Mundial da Uniapac", o empresário Luiz Seabra, fundador da Natura, falava do amor à vida e às pessoas; nos bastidores da imprensa verde, reunida em São Paulo no “VI Congresso de Jornalismo Ambiental”, os profissionais de comunicação comentavam uma outra face da maior empresa de cosméticos do Brasil. A da indiferença da marca frente aos poucos veículos de comunicação ambiental que, desde a ECO/92, lutam para sobreviver em desigualdade de condições com a grande mídia no disputado mercado publicitário.
A bronca que eles têm com relação à hoje quinta maior empresa em vendas diretas de cosméticos no planeta é que ela não reconhece a luta histórica que esses veículos e seus editores, a maioria deles ativistas ambientais, tiveram de travar solitariamente desde a Conferência de Estocolmo, em 1972. Ou seja, ao longo dos últimos 40 anos, quando, pela primeira vez, o ser humano, as empresas e os governos passaram a conhecer na prática a palavra “sustentabilidade”.
Resumo da ópera: segundo queixa geral ouvida no congresso, essas empresas nasceram e hoje ganham dinheiro em nome da mesma natureza que poucos profissionais da imprensa verde lá atrás, mesmo chamados de “bichos grilo”, “loucos” e “contra o progresso”, tiveram a coragem de defender; vide quantos deles perderam a própria vida. 
Quando vão anunciar seus produtos advindos da mesma natureza, o que essas empresas e suas agências fazem? Ignoram os veículos especializados em meio ambiente, sustentabilidade e responsabilidade social. Mais fácil e com interesse apenas mercadológico, preferem anunciar seus produtos e mensagem somente nos grandes jornais, revistas e TVs, para quem é apenas mais um anúncio. E não, de maneira compartilhada e parceira, com os veículos de comunicação que já foram e continuam sendo seus parceiros. Naturalmente.
Que saudade do Miguel Krigsner, fundador de O Boticário, empresa atualmente com um patrimônio líquido de US$ 1,86 bilhão... Repórter e editor do JB Ecológico, do Jornal do Brasil, eu o surpreendi chorando, uma vez, sozinho e triste frente à cachoeira símbolo da atual Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) de Salto Morato, no município de Guaraqueçaba, no Paraná. Ele chorava por tanta dificuldade, incompreensão e falta de apoio do governo e de seus vizinhos, proprietários de terras já devastadas, em sua luta por defender tamanha e bela biodiversidade hoje preservada para sempre, na forma de uma Unidade de Conservação (UC). Na época, nenhum grande veículo de comunicação registrou isso. Nem perdeu anúncio.

Miguel, que ainda está na ativa e foi incluído na lista 2015 de bilionários na Revista Forbes, não era só empresário. Era também um ambientalista e compreendia a nossa causa. Que saudade!