Aviso aos governantes


Parece que nada adianta. Duas décadas depois da Conferência do Rio, a
Foto: Edu Morais

humanidade continua operando perigosamente o planeta, cujos limites e sinais de esgotamento são inegáveis. E o maior desafio em reverter essa tendência suicida continua locado nos mesmos endereços da esfera governamental. No caso brasileiro, uma tarefa difícil, encastelada nas assembleias legislativas, nos gabinetes dos prefeitos, nos palácios dos governadores e na Presidência da República: convencer os políticos e governantes que a causa ambiental é real, urgente e os vitimará também, democraticamente, como aos seus eleitores.
Esse foi o recado maior do ex-deputado e ex-secretário de Meio Ambiente de São Paulo, Fabio Feldmann, durante o Ciclo de Palestras “A Informação e o Meio Ambiente”, promovido no auditório da Fumec, em BH, pela ONG Ponto Terra, em comemoração aos seus 13 anos de atividade.
Segundo o ambientalista, nas democracias, como os mandatos em média duram somente quatro anos, os políticos são forçados a também pensar somente no curto prazo. Não conseguem propor nem realizar nada a médio e longo prazos. Daí, como num círculo vicioso, não planejam nem se comprometem efetivamente com a questão ambiental, a causa que hoje mais ameaça o planeta e preocupa a humanidade, vide os efeitos das mudanças climáticas e os estragos que elas têm feito indistintamente na vida de milhares de pessoas.  Só Obama, presidente do maior, mais democrático e poluidor país do planeta, ressaltou Feldmann, parece ter acordado para isso. E já está pagando um preço politicamente alto para mudar a cabeça de seus pares na Casa Branca: “O nosso futuro comum dirá que ele está certo. A nossa dúvida é se o relógio da natureza irá dar tempo para os EUA liderarem essa nova cultura na política”.


Votos planetários
Segundo o conferencista, autor do livro best-seller “Sustentabilidade Planetária, onde eu entro nisso?”, ninguém pode ser culpado por este contexto. No caso brasileiro, “nem a Dilma, nem os atuais governantes e
políticos. De um modo geral, eles continuam imobilizados pela cultura política tradicional, ainda sem a consciência de que estamos vivendo a maior crise ambiental de todos os tempos. Daí a não urgência da sustentabilidade efetiva nas suas gestões públicas”.
A esperança contra isso, da causa ecológica ainda não lhes gerar votos, apontou Feldmann, está na outra ponta do desenvolvimento sustentável, depositada em um novo tipo de consumidor global em expansão: “Em tempos de uma inevitável e bem-vinda economia de baixo carbono, quem influenciará o novo mercado mundial e o modo dos governantes fazer política doravante, é o consumidor consciente. Esse consumidor, cada dia mais informado do estado do planeta, já está tendo e terá um papel fundamental na mudança de comportamento”.
Segundo o ambientalista, ao exigir e preferir produtos de madeira ambientalmente certificada, por exemplo, essa nova classe consumidora incorporará em sua consciência um novo recado político e exigência eleitoral:  o de que ela não está mais somente consumindo, mas agindo, por exemplo, com cidadania planetária para proteger as florestas que nos restam:
“Isso valerá o seu voto numa escala mundial, vide o poder ainda incomensurável das redes sociais. Será a vez dos eleitores-consumidores politizarem ambientalmente os seus candidatos e governantes, e não mais o contrário. Mobilizações como nas Diretas Já, no Brasil, dificilmente ocorrerão novamente. Mas mobilizações planetárias pela causa, via internet, isso sim, irá acontecer de maneira avassaladora e incontrolável . Será o futuro próximo. E todos nós, incluindo a classe política, que também tem filhos e instinto de sobrevivência, iremos aderir. Não existe realidade e esperança mais democráticas e necessárias do que isso. Só os políticos de uma outra geração ignorarão  o poder eleitoral e irreversivelmente crescente das redes e das ONGs. Só o Greenpeace tem hoje mais de 2,8 milhões de filiados” – concluiu Feldmann.

 

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