O Mineirão do Saara




Que me perdoem o nosso cruzeirense senador Aécio, os atleticanos governador Anastasia, prefeito Marcio Lacerda, seu filho Tiago e o meu amigo Gustavo Penna, representando os arquitetos, engenheiros e urbanistas envolvidos na concepção do novo Mineirão recém-entregue a todas as torcidas do planeta. Eu fui lá outro dia, dia normal de semana. E como todo mineiro que se preze, e vê antes de assuntar, o tamanho e o jeitão do que se quer falar, fiquei horrorizado!

Eu tinha ficado assim antes, olhando já desconfiado as perspectivas paisagísticas e sem verde do futuro Mineirão. Mas o que constatei agora ali, não tem explicação nem humanismo básico. Só cimento, desolação e aridez onde já havia muito verde. Todo o seu novo redor e espaços internos e vazios do novo estádio parecem ter sido planejados para se tornar palco de um culto profano e antiecologico: o de expor, de propósito, os torcedores ao sol inclemente de Minas – o Estado mais solar e com a temperatura em elevação do Brasil – e a todos os possíveis tipos de câncer que esse desamor provoca.

Ali não há sombra natural pra ninguém. Seja para um torcedor idoso, já cheio de manchas suspeitas, escuras e vermelhas nas mãos, braços ou rostos. Seja para uma criança de colo, assando no carrinho de lona ou plástico sobre o asfalto ou cimento. Seja para os camelôs e barraqueiros, não há onde se refugiar. As únicas sombras possíveis são artificiais e personalizadas só pra quem trabalha sob tendas de plástico, que também não evitam a claridade, fazem arder os olhos e potencializam mais calor e desconforto ainda.

O que os autores e paisagistas do novo estádio dos mineiros fizeram no lugar de milhares de árvores que existiam ali? Plantaram algumas mudas aqui e outras acolá, numa economia de gasto desumana. E onde podiam plantar, dentro e fora do Mineirão (e há áreas imensas pra isso, somente gramadas), também foram desecológicos. Simplesmente se esqueceram do verde, de tantos bougainvilles que, possíveis e com baixo custo de manutenção, poderiam colorir e alegrar todos os muros de cimento do novo Mineirão.

Por que isso? Seria uma ojeriza burguesa negarmos a nossa origem bucólica? Ou vergonha boba  e colonizada de mineiro, de querer  imitar a Europa, onde o clima e seus espaços públicos são diferentes?




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 Da esquerda para direita: como está, como era e como foi prometido o estádio Magalhães Pinto (Mineirão)*

O PERDÃO É VERDE

Esses nossos urbanistas não devem saber da história vergel e ambiental de BH. Não sabem que, quando as primeiras secretaria e lei municipal de Meio Ambiente da capital mineira foram criadas, fruto da luta dos ambientalistas nas gestões de Hélio Garcia e Sérgio Ferrara, a prefeitura fez uma pesquisa para descobrir porque 70% das mudas de árvore plantadas anualmente nas imediações do estádio, notadamente ao longo das avenidas Antônio Carlos e Carlos Luz, não vingavam, eram todas quebradas após cada jogo.

A resposta foi simples. Quando o Atlético perdia, seus torcedores, de raiva, descontavam nas coitadas das mudas. Quando era o Cruzeiro a perder, os integrantes da Máfia Azul faziam o mesmo. Como não podiam bater nos juizes e bandeirinhas, nem xingar mais do que já xingavam suas respectivas mães, ambas as torcidas agiam emocionalmente: quebravam todas as pequenas e futuras árvores que viam pela frente.

 O que a Prefeitura fez? Uma grande campanha de esclarecimento junto às torcidas, e nos próprios telões do estádio, antes de cada jogo. O resultado foi uma redução quase absoluta, com quase 100% de adesão, eliminando esse vandalismo.

Mais. Seus torcedores passaram a plantar árvores junto com os funcionários da SMMA em todas as áreas de estacionamento. Isso explica porque, já crescidas, elas passaram a dar sombra para milhares de carros, amenizando sobremaneira o clima de deserto que já havia no projeto original do estádio. Árvores que, mesmo adultas, com flores e passarinhos morando, foram mutiladas sem dó nem piedade no novo projeto.

Como Guimarães Rosa descreve em “Grande Sertão:Veredas”, mostrando o calor e a desolação humana no cenário devastado da caatinga baiana virando deserto, reproduzido no novo Mineirão, o Saara mineiro parecer ter mesmo uma sofrível e colonialista explicação. A de que a maioria dos nossos arquitetos e urbanista ainda sofre da chamada Síndrome Européia, que é querer repetir aqui, no continúo ensolarado e tropical país que vivemos, o mesmo modelo dos países europeus, onde neva e falta luz do sol em grande parte do ano. E, por isso mesmo, não existem nem fazem tanta falta árvores, bosques e florestas conjungados sobreando seus espaços públicos.



AINDA QUE TARDE

Não seria o caso de todos os responsáveis pelo novo, árido e indiscutivelmente cancerígeno Mineirão voltarem hoje ali e – sem preconceitos, mas com a humildade e sabedoria que as montanhas nos ensinam e nos faz diferentes - terem um novo olhar sobre o seu antiecológico, desamoroso e socialmente injusto paisagismo?

Será que eles sabiam que, na comparação com outras nove capitais, BH registrou, em 100 anos, um aumento médio de temperatura de 1,5 graus? E que, segundo um estudo da UFMG, desde 1911 a nossa umidade relativa do ar caiu 7%, chegando a 66,2%, e a temperatura mínima média aumentou 2,7 graus, passando de 15,2 para 17,9 graus? O que nos obriga a usar (e não usamos) filtro solar diariamente, haja sol ou apenas a sua claridade aqui severamente potencializada?

Afinal, nós só temos esse Mineirão, e o amamos, tal como amamos os nossos times. E o que cabe de verde ali dá pra compensar todas as árvores que, atleticanos, cruzeirenses e americanos ajudamos a plantar e não existem mais, por insistirmos em sermos “cidadãos modernos” de uma Europa que, felizmente, não somos.

Mesmo não tendo mar, BH já tem mais casos de câncer provocado pela nossa demasiada exposição ao sol que Florianópolis e oito outras metrópoles litorâneas no nordeste (Salvador, São Luís, João Pessoa, Recife, Natal, Aracaju, Fortaleza e Maceió). Isso mesmo. Esse dado alarmante é do Instituto Nacional do Câncer. E sua estimativa para 2013 – quando o Mineirão e seu entorno sem sombra atrairão um público imenso e permanente - é que mais mulheres que homens serão vítima de câncer de pele. Serão 95 delas, e muitas torcedoras, em busca de tratamento para cada 100 mil habitantes de BH, contra a média nacional de 68.

Isso é triste, e também fere a nossa história bucólica. Cadê a Cidade Jardim, a Cidade Vergel dos versos de Olavo Bilac ou a Paris Brasileira, o Belo Horizonte de clima ameno que fez até um Noel Rosa, o poeta da Vila, buscar a cura de sua tuberculose aqui, e também apaixonar-se por ela? Cadê um Mineirão saudável, também verde por fora, com nossas torcidas protegidas naturalmente contra o sol e as doenças que, assim desrespeitado, ele pode nos provocar?

Por amor, Aécio, Anastasia, Márcio, Tiago e Gustavo Penna. Liderem, ainda que tarde, esta reesperança!


*Crédito das fotos da esquerda para direita: Ecológico, André Ruas e BCMF




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