Entrevista Hiram Firmino

Em 2010 dei uma entrevista para um grupo de estudantes, curiosos sobre minha opinião a respeito das novas tecnologias. Abaixo, segue na íntegra, a nossa conversa:

Hiram Firmino: crença no jornalismo impresso e nas novas tecnologias, com respeito às antigas


Foto: Clipart
Jornalista, 62 anos. Iniciou a carreira no conhecido “grande jornal dos mineiros”, criador e editor do suplemento Estado Ecológico (1992-2001), do Estado de Minas, e das Revistas JB Ecológico e Ecológico, o mundo não é virtual. “A gente sente prazer em visualizar uma foto, uma imagem, uma gravura. Se você faz foto em câmara digital e arquiva a imagem em um pen-drive, ou no computador, é quase certo que não vai vê-la mais. A imagem fica guardada sim, mas esquecida.”
Hiram Firmino é jornalista à moda antiga. Que ainda acredita no diferencial de uma boa equipe de redação na hora de informar. Que adora papel, fotos reveladas e que, até hoje copidesca textos impressos. Alterações feitas diretamente na tela do computador, definitivamente não é com ele.
Nem de longe isso aponta para um profissional fechado. Sua mente é aberta e ávida por novidades. Ele só acha que querer fazer com que o mundo passe a ser 100% virtual e digitalizado não é o melhor caminho. “O homem tem necessidade de tocar, de sentir, de cheirar. Viver em um mundo completamente virtual e digitalizado é desconsiderar essa nossa essência.”
Numa conversa rápida, em meio à correria da edição das revistas, o jornalista manifestou sua opinião a respeito do fim da edição impressa do Jornal do Brasil . Confira:
Como encara o encerramento da versão impressa do JB?

Acho uma pena. O JB poderia manter sua versão digital e também a impressa. Em respeito a toda a sua história, seus leitores e assinantes. Acho que o jornal digital é para essa nova geração. As gerações mais antigas não vão ligar o computador para ler o Jornal no Brasil. Não acredito nisso.  Assim como também não creio no fim da impressão de livros. Para a grande maioria das pessoas mais antigas, ler um livro digitalizado, por exemplo, está fora de questão.

É a favor das novas tecnologias?

Totalmente. Só não acho que uma tecnologia deve excluir a outra. O prazer de pegar um jornal ou um livro impresso não pode ser descartado. A Lya Luft fala essa semana na Veja sobre isso. Para ela, a discussão do fim do livro, da morte das editoras e dos escritores são vazias. Ela diz que gosta do cheiro do livro, do cheiro das bibliotecas. Imagina só se isso acabar… Acho que podemos usufruir de bibliotecas virtuais e também de seu formato mais antigo. Por que não?

Para você o impresso não deveria acabar nunca?

Acho que as coisas devem coexistir. Devemos unir as tecnologias e não criar uma e eliminar outra.

Os jornais impressos estão enfrentando dificuldades no mercado hoje?

A maior dificuldade é o custo. O custo de um jornal virtual em relação a um impresso é praticamente zero. O que temos que descobrir é um tipo de papel e uma tecnologia de impressão que seja mais barata. Foi realizada uma discussão em São Paulo, o Fórum da Associação Nacional dos Editores de Revistas(Aner), sobre novas formas de impressão. Já existem estudos de tecnologia de criação de um papel que depois de utilizado tem seus escritos apagados para que possa ser usado novamente. Acredito que a crise mais real é a do papel. Tanto pelo custo, quanto pelo impacto ambiental que ele gera. Imprimir 400 mil exemplares de jornal impresso, por exemplo, hoje é complicado.

Uma das justificativas que o JB deu a seus leitores, assinantes e à população em geral foi a de que o papel agride o meio ambiente. Você acredita nisso?

Isso é uma meia verdade. Porque já existem papéis que são ecologicamente produzidos, em empresas que empregam pessoas e adotam a política da responsabilidade social, gerando fonte de renda a muitas pessoas e mantendo o planeta ainda mais verde.

O JB abriu mão de produzir seu impresso de forma ecológica?

Infelizmente, sim. Justificar a versão 100% digital em prol do planeta é uma meia verdade.  E o jornalismo vive de verdades inteiras.


Entrevista cedida aos alunos Alessandra Gálatas, Ana Lúcia Figueiredo, Cintia Melo, Hélio Monteiro e Vinicios Sebastian do curso de Jornalismo Multímidia do Centro Universitário UNA.