Obrigado Aldo. A morte de José e Maria não será em vão.


“Imagine Aldo, se a presidente Dilma resolve aliar-se ao Greenpeace e decretar o desmatamento zero no país. Vocês podem entrar para a história do planeta”

Hiram Firmino: Diretor da Revista Ecológico
Valeu, ‘seu’ relator Aldo Rebelo, por tudo o que seu insustentável e aprovado projeto de lei promete causar ao meio ambiente que nos resta e protege. Graças à sua ignorância de ainda achar, como antes de Copérnico, que a Terra é o centro do universo, e que o Criador não é maior que nós - pobres mortais -, o Brasil e o mundo hoje sabem que temos um Código Florestal. E que precisamos dele para sobreviver, tal como uma minhoca, uma árvore, um peixe, uma flor ou um passarinho.

Graças à sua indiferença para com nossos rios, nascentes, várzeas, florestas e matas ciliares, todos os brasileiros, incluindo ruralistas e políticos arcaicos, tomaram conhecimento e discutiram o nosso futuro comum, como nunca antes em nossa história.
Obrigado por ter feito toda a imprensa também aprender e ensinar didaticamente aos brasileiros o que vem a ser área de preservação permanente, reserva legal, topo de morro, mata ciliar. E indicar que somente quando o governo federal criar mecanismos econômicos, como o Bolsa Floresta, tornando e nacionalizando as nossas matas mais valiosas em pé do que no chão, a agropecuária as poupará. 

Graças ao que o senhor fez revelar, não somos mais inocentes nem analfabetos políticos. Não votaremos mais, tão facilmente, em alguém desvinculado da questão ambiental;  mas sim naqueles que, de maneira sustentável, abraçarão a causa que pode significar a salvação do planeta e da humanidade (incluindo o senhor, sua família, filhos e netos e eleitores, ruralistas ou não).

Sua proeza em fazer reunir, com apenas duas exceções, todos os ex-ministros vivos do Meio Ambiente do Brasil ao redor da ministra Izabella Teixeira e da presidente Dilma, tem um valor histórico que somente as gerações futuras saberão avaliar.

Melhor de tudo, Aldo. Você, os ruralistas e todos aqueles da base aliada que traíram a nossa presidente e última esperança, conseguiram o que mais queríamos: provocá-la. Você não sabe o que uma mulher politizada, metade mineira, metade gaúcha, é capaz de fazer. Ela terá a chance de se tornar a estadista que o planeta ainda não teve, já que Lula jogou essa chance fora.

Imagine, Aldo, se ela resolve aliar-se ao Greenpeace e decretar o desmatamento zero no país, enviando as forças armadas para a Amazônia... Prepare-se! Você pode entrar para a história não do Brasil, mas do planeta!
Mais que obrigado, ‘seu’ relator, peço-lhe que também perdoe, como um deus comunista, seus colegas ruralistas pela inacreditável vaia que eles deram nas galerias do Congresso Nacional, quando da votação do seu projeto. Ao saber da morte do casal de ambientalistas José Cláudio Ribeiro e Maria do Espírito Santo, assassinados a mando dos  madeireiros do Pará, na mesma ocasião, eles vibraram macabramente. Detalhe: os pistoleiros contratados pelos antiflorestas ainda arrancaram a orelha de José, para comprovar a insustentabilidade do ato.

José e Maria eram líderes de projetos extrativistas. Lutavam, entre outras causas, para proteger a castanheira, árvore que por lei não pode ser derrubada. O casal morava numa propriedade de 20 hectares, com 80% da área florestal preservada. Junto com outros 500 pequenos produtores, extraiam óleos vegetais, cupuaçu e açaí. Estavam ameaçados e foram mortos por denunciar o avanço do desmatamento da Amazônia paraense para a produção de carvão e formação de mais pasto. E mesmo assim, Aldo, sua turma os vaiou e deu gargalhadas em Brasília, longe do enterro simples, num chão devastado.
Que Deus perdoe e guarde a sua alma, como a deles. Você e todos os outros políticos que, no fundo, também votaram contra José e Maria, já sabem o que fizeram. Se a primeira batalha vocês venceram e comemoraram de maneira tão mórbida, na guerra final que será travada no Senado, sob a liderança de Dilma, nós todos venceremos. E vocês, naturalmente - esta é a grandeza ambiental -, estarão incluídos nesta vitória. Biologicamente, necessariamente e sem vaias.

Mas como escreveu nossa colega Miriam Leitão num artigo comovente, a Terra se move. E move mesmo, com sua beleza e esperança resistentes. Hoje é Dia Mundial do Meio Ambiente. Melhor comemorarmos, nesta edição especial da ECOLÓGICO, a esperança do Desmatamento Zero, ainda que tardia.

Obrigado, Aldo. Nossa torcida antecipada, Dilma. A morte de José e Maria não será em vão. Boa leitura!
Estamos juntos. Até a Lua Cheia de julho.